Desde a trilogia Millenium de Stieg Larsson eu não me aventurava por esses romances contemporâneos de suspense. É um gênero engessado do tipo leu um livro de um autor, leu todos os outros publicados por ele. Mas, de vez em quando, surge alguma coisa interessante como a referida trilogia Millenium que trazia temáticas atuais e, digamos, tinha algum cunho político. Lembro que um amigo chegou até mesmo a sugerir que a trilogia Millenium era na realidade um roman à clef. Não sei se era, mas gosto de fantasiar que sim.
O caso é que Stieg Larrson, embora não tivesse uma técnica narrativa muito diferente de outros escritores do mesmo gênero, se absteve de futilidades. Não era apenas um personagem numa busca implacável por justiça e/ou fugindo de uma gangue quase tão onisciente quanto Deus. Tráfico humano, violência contra a mulher, prostituição, etc. Temas que não são exatamente originais, mas que são pontos sensíveis em se tratando da Suécia, país daquele autor.
Mas por que eu estou dizendo isso tudo? Essa resenha é sobre o livro do Harlan Coben, certo? Confesso que eu tinha curiosidade de ler esse autor. E caí do cavalo. Não Conte a Ninguém é um livro muito fraco. É apenas mais uma história que ousa apontar para problemas sociais, mas não desenvolve nenhum deles muito bem, pois estão ali apenas para encher linguiça: serviço de saúde público, corrupção policial (sempre ela, em todos os livros desse gênero ela tem de aparecer) e o que é pior: as circunstâncias nas quais se deu o crime – o assassinato do jovem milionário Brandon Scope – que é o estopim para todos os problemas dos personagens são apenas citadas en passant. No geral, esse é um dos grandes problemas do livro: o autor simplesmente joga para escanteio o que poderia ser o melhor do livro, tanto em relação à narrativa como, e principalmente, em relação aos personagens.
Outro problema é que me senti lendo um livro da Mary Higgins Clark ou do Dan Brown. Eu sei que este é apenas mais um thriller que vendeu bastante e não dá para exigir muito, mas a coisa vai mal quando você tem sensações de déjà vu ao virar cada página. As técnicas narrativas dele são muito batidas. E mesmo utilizando um modelo requentado, poderia pelo menos fazer bom uso dele. Mas nem isso acontece. Vou explicar.
Em Não Conte a Ninguém, David Beck é um pediatra amargurado que nunca conseguiu superar o brutal assassinato da esposa ocorrido oito anos antes. E piora: ela foi morta em sua presença, quando comemoravam o aniversário do primeiro beijo. Entretanto, a polícia reabre o caso após quase uma década quando dois corpos são encontrados perto do local onde Beck e a esposa foram atacados. Quase que ao mesmo tempo, Beck começa a receber estranhos e-mails anônimos com informações que somente a esposa e ele sabiam. As investigações da polícia tomam um novo rumo e Beck passa a ser acusado do assassinato da mulher e de uma fotógrafa. Três pessoas o ajudam a provar sua inocência: uma modelo famosa que, além de ser sua melhor amiga é também sua cunhada, uma advogada midiatizada e um traficante.
A história tem uma quantidade infinita de personagens que são pouco ou nada desenvolvidos. Estão ali apenas de forma instrumental para justificar o andamento da trama policial. Quanto a isso, não vejo exatamente um problema. Muitas narrativas policiais fazem isso de forma descarada. O problema é: se estão ali apenas como instrumentos, por que Coben se deu ao trabalho de criar uma história para eles? Por que adentrar em sua intimidade e seus dramas pessoais se não tem intenção alguma de desenvolver aqueles pobres miseráveis? Isso é propaganda enganosa. Neste tipo de narrativa, você acaba se afeiçoando a alguns personagens. Então há uma expectativa de que eles sejam tratados com o devido respeito. Entretanto, chego ao capítulo final do livro e fico atônita ao me deparar com o seguinte trecho:
Você deve estar querendo saber se Tyrese se mudou para a Flórida e como andam TJ e Latisha. E mais: se Shauna e Linda continuam juntas e se Mark está feliz. Mas não posso dizer, porque não sei. Essa história termina aqui,[...]
Esse trecho significa apenas uma coisa: o autor simplesmente jogou todos esses personagens no lixo. Não vou cair em contradição aqui dizendo que eram personagens importantes quando falei anteriormente que não há um desenvolvimento satisfatório deles. O que posso dizer é que deveriam ser: Tyrese é o traficante que ajuda Beck, Shauna é a melhor amiga dele, Linda é sua irmã e Mark, seu sobrinho.
E devo dizer que eram os personagens mais interessantes da trama no pouco que foi desenvolvido sobre eles. O protagonista é aquele tipo de sujeito que você fica se perguntando como conseguiu sair da friendzone. Ele é tão chato com seu mimimi que você realmente fica contente quando ele descobre detalhes obscuros sobre o passado da mulher. E, de fato, foi isso que mais me desagradou na leitura: não parece um thriller dramático, parece um dramalhão com cara de thriller. Sem falar que não é impossível, mas é improvável alguém parar oito anos de sua vida por conta de uma tragédia, ainda mais uma pessoa jovem (digo isso porque sou jovem e posso me colocar no lugar da criatura). Geralmente, há um período de luto, mais longo para alguns, e depois a pessoa acaba se resignando e tocando sua vida pra frente.
Não Conte a Ninguém é o tipo de livro para quem gosta mesmo de histórias românticas. Não recomendo para quem aprecia tramas policiais porque a trama é muito previsível. Isso não seria demérito se o livro apresentasse “um algo a mais”. Mas isso não acontece.
Ademais, sou da opinião que romantismo deve ser inserido nesse gênero de forma sutil, não em doses exageradas como ocorre no livro de Coben.
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Tags:Arqueiro, Harlan Coben, Não Conte a Ninguém
Assassinato no campo de golfe é o livro em que ocorre a segunda aparição do detetive belga Hercule Poirot (a primeira acontece em O misterioso caso de Styles). Acompanhado de seu amigo, o Capitão Arthur Hastings, Poirot viaja a França atendendo ao pedido de socorro de um milionário.
O milionário em questão é Paul Renauld, um canadense que viveu a maior parte de sua vida na América do Sul e agora instalou-se na Inglaterra e resolveu passar as últimas férias na França (quantos lugares, hein?). Infelizmente, ao chegar à mansão do homem, Poirot descobre que ele está morto e resolve ajudar a polícia francesa a elucidar o crime. A competição infantil entre Poirot e o investigador francês, Giraud, rende boas risadas. A não ser que você pense igual a Hastings que se sente humilhado e envergonhado pelo amigo não ser tão eficiente quanto Giraud (que é uma sátira de Sherlock Holmes)
A trama policial de Assassinato no campo de golfe é uma das melhores que Agatha criou porque é uma das mais emaranhadas. E chega determinado momento em que o Poirot, mesmo sabendo muito, encontra-se de mãos atadas. Para quem conhece a empáfia do personagem, sabe o quanto isso é divertido.
Agora vem a parte ruim: Hastings está simplesmente insuportável nesse livro. E como toda história na qual é personagem também é o narrador, a gente fica prisioneira dos pensamentos absurdos dele. Para quem nunca leu um livro de Agatha Christie, Hastings é um personagem romântico, com uma imaginação bem fértil, sexista e estúpido, embora seja um cavalheiro, educado, um perfeito britânico da primeira metade do século XX.
Cá pra nós, eu sou da velha guarda. Para mim, uma mulher deve ser feminina. Confesso que não tenho paciência com essas garotas modernas e neuróticas que vivem no compasso frenético do jazz desde que o dia amanhece até que anoitece; fumam como chaminé e ainda usam uma gíria que faria corar de vergonha os marinheiros da beira do cais!
Substitua jazz por funk que vai perceber que existem muitos Hastings por aí. Mas tudo o que é ruim pode piorar porque é precisamente nesta história que ele conhece a futura Mrs. Hastings. Uma garota que é infinitamente superior a ele em todos os sentidos. Não sei o que ela viu nele. Enfim, há momentos em que parece que estamos na mente de um adolescente.
Mas nem tudo é culpa de Hastings. Acho este um dos livros mais rasgadamente românticos de Agatha Christie. Todo mundo se sacrifica para salvar e/ou proteger o grande amor de sua vida. Poderia até não causar estranhamento se tantos personagens não fizessem isso.
Para finalizar, destaco as mulheres da história. Como já falei em outra resenha, adoro as personagens femininas da Agatha. Aqui temos uma desbocada – Cinderela. A fatal – Mrs. Daubreuil. A abnegada – Mrs. Renauld. A passional – Bella Duveen. E a angelical – Marthe Daubreuil. Embora algumas apareçam mais que outras, são todas muito divertidas e compensam a chatice de Hastings.
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Tags:Agatha Christie, Assassinato no Campo de Golfe, Record
Clube da Luta, Chuck Palahniuk
Quando a gente lê um escritor famoso, é impossível não criar alguma expectativa. No meu caso até encarei Clube da Luta, de Chuck Palahniuk, com moderada excitação, pois conhecia comentários negativos e positivos em relação à obra. Já tinha visto o filme, adaptação de David Fincher. E considero um bom filme.
A adaptação não difere muito do enredo do livro. Como no filme, no livro somos apresentados a um personagem – jamais nomeado (vamos chamá-lo de X) – que sofre de insônia e encontra na visita a grupos de apoio uma maneira de curar seu problema. Ele tem um emprego monótono, mas ganha o suficiente para ter um apartamento razoável e manter seu vício: consumir. Aliás, sua razão de existência é essa. As coisas começam a mudar quando ele conhece um rapaz, o rebelde Tyler Durden. Juntos, criam o clube da luta, um meio que encontram de se sentirem vivos numa sociedade em que as pessoas se encontram anestesiadas. Isso porque ao contrário do que se poderia pensar, o objetivo do clube não é vencer os combates. Talvez essa nem seja a ideia, mas penso que existe algo de primitivo nos homens que participam do clube, como se ao lutarem evocassem aquilo que há de mais selvagem no bicho humano. Eles vão ali para extravasar o estresse e as frustrações diárias. Na falta de uma alternativa, é na dor e no extremo que encontram conforto.
Penso que Clube da Luta funciona melhor como um exercício sociológico do que propriamente literário. Ao traçar a derrocada do personagem, Palahniuk apresenta o drama do sujeito contemporâneo num retrato que muito bem reflete a crise de identidade. Primeiro, é um personagem anônimo. Daí você pode interpretar que poderia ser qualquer pessoa, até mesmo você. Um personagem inominado, com um emprego comum, viciado em consumo e que não define se é insone ou narcoléptico (olha a dicotomia). Para “se curar” de seu problema, frequenta grupos de apoio. Mas depois de certo tempo passa a sentir desprezo por si próprio quando identifica em Marla Singer tudo aquilo que ele é. Afinal, ele não perdeu os testículos, não tem parasitas no cérebro nem é alcóolatra. Ele é tão falso e mentiroso quanto acusa Marla Singer de ser. É engraçado que numa brincadeirinha dessas, Palahniuk mostra de forma bem simples como funciona a alteridade. Sempre desconfie quando alguém nutrir um ódio muito grande por outra pessoa porque o mais provável é que haja mais semelhança do que diferença entre as duas.
A explosão do apartamento é um evento marcante nesse sentido porque marca a ascendência de Tyler. Depois disso, não há mais como ignorar sua existência e, a partir de então, o poder de Tyler sobre X só aumenta. Os lapsos de memória desaparecem e Tyler coexiste com X. Os dois conversam e só voltam a se unificar quando Marla entra em cena.
Embora Clube da Luta seja um mosaico – sem nenhuma organização, é verdade – da vida contemporânea: o consumismo, a obsolescência nas relações de trabalho, o anonimato, etc., ao apresentar um personagem com dupla personalidade, penso que Palahniuk fala mais detidamente sobre o homem (gênero). É o macho em crise. Isso não fica explícito, mas o clube da luta só existe enquanto válvula de escape para que os homens que dele participam liberem suas frustrações. Na busca por um papel na sociedade, pois aqueles tradicionais não fazem mais sentido, o homem moderno procura se encontrar nas atividades que envolvem risco para afirmar sua masculinidade.
Isso tudo é muito bacana. O que particularmente não me agrada em Clube da Luta é a escrita de Palahniuk. Me senti lendo um livro escrito por um adolescente. Embora faça uso do discurso indireto livre com certa agilidade, literariamente falando, Clube da Luta é ingênuo e pueril. Não há frescor na linguagem, o escritor não inova, repete frases três vezes para criar uma imagem obsessiva, de medo, de súplica e quantos outros sentimentos você puder imaginar. Acredito que isso foi o que me fez demorar mais na leitura porque o livro é bem pequeno.
Leia por sua própria conta e risco, mas acho que o filme trata de todos esses aspectos que citei (e outros mais) talvez até melhor que o livro.
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Tags:Chuck Palahniuk, Clube da Luta, Nova Alexandria
Obra Completa, Murilo Rubião
Essa Obra Completa de Murilo Rubião é daqueles livros que ficam jogados na estante por certo tempo e quando você finalmente se dispõe a lê-lo, ao término se pergunta por que não fizera isso antes. É verdade que não há grandes surpresas, nem nada revolucionário no texto deste autor, mas são contos divertidíssimos e muito bem escritos. E tinham de ser: Murilo Rubião deve ter sido um dos escritores brasileiros mais perfeccionistas, reescrevendo seus contos inúmeras vezes até chegar ao resultado que esperava. Sua obra constitui-se de 33 contos, donde alguns já publicados foram reescritos e publicados novamente pelo autor.
De forma geral, os contos de Rubião são curtos como os de Tchékhov, mas diferem bastante deste pela temática abordada. Logo no prefácio, somos alertados para a dificuldade em dizer se seu conto pertenceria ao realismo fantástico. Segundo Todorov, um dos elementos que caracterizaria o realismo fantástico seria a hesitação dos personagens diante das situações absurdas que se lhes apresentam. Mas na obra de Rubião isso não acontece. Os personagens aceitam de bom grado não só o fato de um coelhinho falar, mas apresentar-se de diversas formas (caso de “Teleco, o coelhinho”).
Entretanto, acho que isso não tem tanta importância, a não ser, talvez, pelo fato de Rubião, ao lado de Cortázar e Gabriel García Marquez, serem expoentes de uma forma narrativa peculiar: o realismo mágico. Confesso que não me liguei muito nisso enquanto lia. Também não procurei sentidos outros nos contos, achei-os apenas agradáveis de ler e divertidos, especialmente por terem como cenário aspectos da cultura brasileira. .
Não queria destacar contos, até mesmo por que já faz algum tempo que li o livro, mas nunca vou esquecer a impressão que me causou O Convidado quando li a primeira vez, numa coletânea de textos em minha época de estudos para o vestibular. Tem alguma coisa nos contos de Rubião com esse toque fantástico, mas há também um quê de onírico. É como se você se transportasse para dentro de um sonho (ou talvez um pesadelo). É uma sensação esquisita: assusta e fascina. Nunca pensei que fosse dizer uma pieguice dessas, mas são contos para serem mais “sentidos” que interpretados.
Murilo Rubião foi um solteirão convicto e chegou a dizer que tinha muita vontade de converter-se ao catolicismo antes de morrer. Não costumo dar esses detalhes biográficos nos textos que escrevo, mas acho essas duas coisas muito engraçadas. Pra mim, um dos escritores brasileiros mais… hum, estranhos.
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Tags:Companhia de Bolso, Murilo Rubião, Obra Completa
Presença de Anita
Amiguinho, o texto contém spoilers. Só leia se você já viu a série ou se não se importa em saber de detalhes.
Abro o ano de 2013 com uma publicação sobre uma adaptação de um livro que nunca li. Portanto, não espere uma comparação (que acho que não faria mesmo que tivesse lido). O post é sobre a série, não sobre o livro.
Eu era muito nova quando essa série passou na TV. Vi poucos capítulos e lembro ter me causado grande impressão na época. É engraçado como são essas coisas porque às vezes quando você revê algo que gostou muito, percebe que não era isso tudo.
Recentemente dei um jeito de ver a série completa e, enquanto assistia, procurei sem sucesso textos que a resenhassem e resolvi escrever este expressando o que penso da adaptação de Manoel Carlos. Presença de Anita é uma série interessante. Talvez uma das mais interessantes produzidas pela Globo, mas opta por algumas escolhas que eu jamais teria feito.
Mas vou dizer primeiro o que gostei na série. Como já falei, não li o livro e não faço ideia de como seja a história que serviu de ponto de partida para Manoel Carlos. Então, pode ser que essas ideias que me causaram boa impressão na série também sejam ideias de Mario Donato (autor do livro). Somos apresentados a uma família constituída por um casal de meia idade (Nando e Lúcia), o filho deles e a filha do primeiro casamento do marido (Luiza e Luizinho, a criatividade reina). Logo de início temos indícios que, embora a família não esteja passando por grandes dramas, o casamento está em crise e há claramente uma relação tensa entre esposa e enteada, embora nada que seja de todo grave.
A esposa tem a ideia brilhante (ironia, galëre) de passar o natal e o ano novo na cidadezinha onde nasceu e cresceu – Florença – e, assim, dar a oportunidade de Nando ter a tranquilidade necessária para escrever o romance que nunca escreveu. A princípio, parece uma boa ideia: fugir da correria da cidade grande (eles vivem em São Paulo) e da violência, e procurar um lugar calmo para colocar as ideias no lugar, ar puro, fresco, calma, tranquilidade e todo o bucolismo que você conseguir imaginar. Entretanto, fica evidente que Nando e a filha Luiza não querem fazer a viagem. Gostam da cidade grande – e do que ela pode oferecer – e detestam cidades pequenas.
Até aí não temos muito bem delineados os personagens. É durante a viagem à Florença e quando chegam à cidade que começamos a entender a família. Nando é um sujeito acuado, apagado, deprimido, sem nenhum tesão por nada, como ele próprio confessa à esposa. Isso é reflexo de algo que fica implícito: Nando é, em certa medida, “sustentado” pela mulher. Não é bancado naquelas coisas básicas, mas nos luxos: roupas caras, uísque e charutos da melhor qualidade. Claramente podre de rica, Lúcia se casou com Nando contrariando a vontade da família que não gosta mesmo dele. Entendeu agora a ironia do parágrafo anterior? Você está passando por uma crise conjugal e acha que vai salvar seu casamento arrastando o marido para passar as festas de fim de ano com uma família que o odeia e vice-versa.
É por isso que quase desde o início fica claro que Lúcia é uma mulher muito estúpida, além de insegura, passiva e subserviente. Ama o marido de uma forma doentia e inspira pena nele. “Não há nada mais patético do que ser amado por aqueles que nos amam.” Não há melhor frase para definir a situação. Nove anos de casamento e a mulher não consegue perceber que o marido não a ama mais.
A partir do momento em que chegam a Florença, uma sucessão de eventos dá o tiro de misericórdia na relação dos dois: o sogro de Nando joga na cara dele o estorvo que é para a família e como ele é um perdedor, Lúcia encontra um pedaço de papel em que Nando escreveu coisas deprimentes, claramente se referindo a ela, etc.
Venâncio – pai de Lúcia – é uma típica figura estereotipada do microcosmo da cidade do interior. Não tem papas na língua na hora de acusar o genro de oportunista, fracassado, “viado” cheio de frescuras e por aí vai. Há diferenças muito grandes entre os dois homens. E logo fica evidente qual é o mote de Presença de Anita (notem que até agora nem mencionei a personagem que dá nome à série): é no choque entre os diferentes que a miséria dos personagens aparece. Venâncio é um homem truculento, homofóbico, machista e grosseiro. Nando (aparentemente) faz a contraparte: é um homem educado, refinado, mas que se mostra tão cheio de preconceitos quanto o sogro. Nos momentos de ódio, aproveita para destilar seu veneno contra tudo o que é da ordem do “provinciano”. Até mesmo nas mentiras que conta à esposa para encobrir seus encontros com Anita: “Ah, eu estive conversando com o pessoal da cidade para ver se me davam alguma ideia para o romance, mas não adiantou nada. É tudo um bando de broncos.” Percebem?
Lembro de sentir pena dele quando assisti a Presença de Anita pela primeira vez, mas Nando mereceu cada tormento pelo qual passou. Acusava o sogro de machista, mas ele próprio era tão ou mais machista na maneira de tratar a amizade entre Anita e sua filha Luiza. Não queria sua filha de amizade com uma “putinha mixuruca”. E é num de seus diálogos com Anita que percebemos como aquele homem é inescrupuloso, quando afirma que pensava em ter encontros circunstanciais com ela, mas de modo que isso não lhe trouxesse “prejuízos”. A hipocrisia de quem trata uma mulher como objeto, mas chama o cunhado de tarado por este deseja-la. Afinal, “é uma criança.”, dizia ele.
Não posso deixar de mencionar a Vera Holtz, dando vida de forma brilhante a uma personagem racista e que referencia nossa história pregressa: o senhor que faz uso sexual dos escravos. A mulher é simplesmente nojenta. Doente é a palavra para descrever essas pessoas que fazem uso da violência física e/ou simbólica contra seus objetos de desejo. O uso da violência dá-lhes a ilusão de matar aquilo que está dentro delas.
Contudo, a maioria das boas ideias da série são postas de forma muito incidental e até mesmo apressada para o espectador. Um exemplo é o momento em que a traição de Nando fica evidente para toda a família. Uma das irmãs de Lúcia, posando de decente, fala para o cunhado que ele desonrou a família. Nando zomba da cara dela ao dizer que tem conhecimento das duas empregadas que o sogro engravidou e que foram “escondidas” pela família. Isso ocorre nos últimos capítulos da série. São relações que poderiam ter sido desenvolvidas.
E Anita? Anita é a personagem que, paradoxalmente mais e menos importa na série. Importa porque seu surgimento faz aflorar todas essas tensões. Anita não destrói a família de Nando. Essa é uma constatação muito apressada e machista da história. A família de Nando é uma farsa. É uma família que, como várias outras, vive de aparências. Qualquer pancadinha faz o vidro trincar. Não importa porque ela é dessas pessoas invisíveis que não têm importância nenhuma para a sociedade. O único sentimento que sua morte incitou foi o de curiosidade mórbida das pessoas. Ninguém se importou com o fato de ela ser uma garota jovem, que tivesse parentes que se importassem com ela ou sequer com a forma bárbara como morreu. Fica implícito que o destino de uma garota como aquela não poderia ser outro. O pior é inserir uma cigana na história de modo a reforçar essa ideia de destino.
No decorrer da série não sabemos muito sobre Anita, a não ser o que a personagem fala. Isso acentua a aura de mistério em torno da garota. Mas temos algumas pistas: sabemos que Anita é de origem humilde, por exemplo. Quando está com Zezinho vemos, o que acredito ser, aquilo que mais condiz com a personalidade dela. Cheia de dúvidas, ingênua e apaixonada.
Anita está ali para mostrar as contradições da vida familiar. Sua maneira de ver o mundo é própria de sua geração e isso entra em conflito com as convicções de Nando. Mas Anita também é romântica e sonhadora. E ela sonha em ser única para Nando. Entretanto, ser romântica e sonhadora não faz de Anita uma babaca que não vê um palmo diante do nariz. Cagão é do que ela chama Nando quando este não cumpre suas promessas. Anita sabe que embora não ame Lúcia, Nando prioriza a relação com a esposa e não quer se desfazer desta. Um dos momentos mais tristes é quando Nando informa que não poderá mais fazer a viagem que prometeu a Anita. Ela passa de uma pungente expressão de desolação a uma ira feroz.
Mas o momento mais revelador é quando somos apresentados à mãe dela. “A Anita era muito mentirosa” não é exatamente a frase mais apropriada para se dizer a uma mãe que acaba de perder a filha, mas é ótima a resposta que ela dá: “Mais do que o senhor mentiu para ela?” Durante todo o tempo, Anita vinha se correspondendo com a mãe e contava cada detalhe sobre sua relação com Nando. Por essa, ele não esperava. Enquanto tinha um casinho à toa, Anita levava o romance muito a sério. Quem é a vítima e quem é o algoz? Nando mostra sua faceta covarde porque, além de matar Anita, uma garota que não tem a proteção de ninguém, ainda deixa que outra pessoa leve a culpa pelo crime. Quantas vezes já vimos crimes semelhantes?
À exceção de Vera Holtz, Mel Lisboa e Leonardo Miggiorin, ironicamente os dois atores jovens e iniciantes, são os únicos dignos de nota. Tiveram performances impecáveis. José Mayer só conseguiu fazer o que faz sempre: ser garanhão. Ele é bom nesse tipo de personagem, mas Nando tinha muitas nuances que ele não conseguiu mostrar de forma satisfatória. Eu jamais teria escolhido José Mayer para interpretar Nando. Helena Ranaldi como Lúcia está passável. O resto do elenco é mediano.
A edição, a montagem e os planos estão muito viciados. Há uns cortes desnecessários de modo a criar um ar de suspense. Planos muito fechados nos atores. Outra coisa irritante é a trilha sonora. Tirando as músicas do Aznavour, o resto força certa elitização da série, além de ser extremamente recorrente. Pior do que isso só o caráter pedagógico que o roteiro assume: os personagens precisam informar o espectador que compositor erudito é aquele, quem é o intérprete da música em francês, etc. Ou seja, caro espectador, a imagem que Manoel Carlos e Ricardo Waddington faz de você é de um ignorante, de alguém que desconhece compositores eruditos batidos. De zero a dez, eu daria seis para Presença de Anita.
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